Textos de Luciano

abaixo do horizonte, acima do mar

me sinto pesado à luz da manhã,
um lembrete da vida lá fora
um alarme reverso

abro a porta do microondas,
os apitos, o apertar dos olhos,
o cheiro do café solúvel

de costas pro sol, de frente pra varanda,
o que me impede da névoa
é a tela em rede, com seus nós

à beira do mirante, sou
    rarefeito
    alpinista
    delirante

refluxo

me convido à sua vida como o soco ao estômago depois de uma noite de cachaças.
qualquer contato contigo é nauseante e doce
e me queima
do peito até a boca que
                 não sabe se
                          se cala
                       ou se vicia.

pela manhã, o café me acorda
e evidencia os lapsos, os vazios da noite.
meu corpo, quase em reflexo, recorda sua acidez,
sua desnecessariedade
  como um trauma irracional
    cada parte de mim
       repassa seu toque,
    enquanto a mente
      disfarça.

distante,
  a lua
minguante.

na livraria

    era um menino vestido como eu me vestia aos quatorze. com a mesma paixão nos olhos, com a mesma confusão nos movimentos. e, como eu em minha virtude, visivelmente perdido entre o caos e os sentimentos.
    projetei seu futuro como quem joga os búzios: aos dezesseis, amaria uma serpente; aos dezessete, aplicaria bêbado o que achava que aprendia nos filmes pornôs. aos vinte e um, realizaria que sua teimosia não é nada diferente da de seus pais. aos trinta e dois, pela primeira vez, entraria em pânico com o pensamento de que sua morte não é a mesma que leu na poesia.
    veria que sonetos são antiquados, mas que há espaço na vida pro subjetivo, pro analógico. veria que sua vida é tão feliz e tão sofrida quanto a do outro, mas se sentiria ainda mais sozinho com isso.
    seria gentil nos dias bons, seria áspero nos dias bons. teria dias bons.
    devolvi o shakespeare pra prateleira de uma forma arbitratriamente barulhenta, mas não consegui alcançar seus olhos.

entre quatro paredes

queria dormir
na sua cama
esta noite

não quero
nada não
    nem esquemas
    nem holofotes
    nem segredos

só quero o quase-ver do seu sorriso
sabendo que ele existe nesse vulto
e está guardado em mim e em seus lençóis.

duas listras

agora está tudo certo. os contratos assinados, os móveis encomendados, os suores esquecidos. é hora de reduzir o ruído de fora pra dar vez ao que vem de dentro.
nove anos e quatro amores me bastaram para entender a capital. meus primeiros sinais de intolerância, traço característico do meu sangue, se revelam nas músicas que retiro das caixas de papelão.
é pra frente, diz a consciência, com uma bandeja de saudosismos. pra frente, grita, olhando pra trás. meu medo de viver o presente só para o tornar lembrança se confirma cada vez mais - cada vez que visto esse casaco de duas listras.
aos quinze, sem muito dinheiro e noção de moda, eu achava o máximo esse casaco de duas listras. sempre via uma ou três, nunca duas. foram só quarenta reais, eu dizia, sem ideia de quanto custava os adidas dos amigos. cem reais por uma listra a mais, listra que demonstrava algo que eu não sabia o que era: status. listra que, hoje, já não me tem mais valor.
e como a segunda listra que demarca a resistência ao óbvio, essa segunda passagem pelo local da minha juventude me faz renunciar aos velhos hábitos. não há ninguém aqui. ninguém que eu possa dizer que conheço. seus rostos são tão familiares e vazios de conteúdo quanto o que vejo no espelho.
mas o que me fez voltar foi apenas um motivo: essa cidade me permite. esse frio me permite. tudo. e assim como o frio, a cidade e os rostos que reconheço, continuo como sempre estive, eternamente um vulto no canto dos seus olhos.