Textos de Luciano

duas listras

agora está tudo certo. os contratos assinados, os móveis encomendados, os suores esquecidos. é hora de reduzir o ruído de fora pra dar vez ao que vem de dentro.
nove anos e quatro amores me bastaram para entender a capital. meus primeiros sinais de intolerância, traço característico do meu sangue, se revelam nas músicas que retiro das caixas de papelão.
é pra frente, diz a consciência, com uma bandeja de saudosismos. pra frente, grita, olhando pra trás. meu medo de viver o presente só para o tornar lembrança se confirma cada vez mais - cada vez que visto esse casaco de duas listras.
aos quinze, sem muito dinheiro e noção de moda, eu achava o máximo esse casaco de duas listras. sempre via uma ou três, nunca duas. foram só quarenta reais, eu dizia, sem ideia de quanto custava os adidas dos amigos. cem reais por uma listra a mais, listra que demonstrava algo que eu não sabia o que era: status. listra que, hoje, já não me tem mais valor.
e como a segunda listra que demarca a resistência ao óbvio, essa segunda passagem pelo local da minha juventude me faz renunciar aos velhos hábitos. não há ninguém aqui. ninguém que eu possa dizer que conheço. seus rostos são tão familiares e vazios de conteúdo quanto o que vejo no espelho.
mas o que me fez voltar foi apenas um motivo: essa cidade me permite. esse frio me permite. tudo. e assim como o frio, a cidade e os rostos que reconheço, continuo como sempre estive, eternamente um vulto no canto dos seus olhos.

cep 20.000

no metrô zona sul
de ouvidos fechados
ouvi uma pessoa declamando poesia

ele era
  homem
  branco
  limpo

declamou
  uma atrás da outra
    drummond
    leminski
  até uma
    dele mesmo

que poesia há
em suas palavras
  másculas
  brancas
  limpas?

    a poesia de ouvidos
    tão fechados quanto os meus.

supernovas e buracos negros

criar não é uma arte,
é uma consequência.

queria poder ser criativo
como as tantas estrelas que admiro durante a noite
mas dedico minha vida a lutar contra a gravidade
a carência
da minha situação
que me diz que
em vez de pó de estrelas
sou uma singularidade
sem som, nem luz
que me dê cor ou sentido, não
sou um ponto nesse inefável céu

perdido entre vênus e marte

abraçado ao vazio e a sua imensidão
tenho dificuldades de sentir meus pés na terra

ela é árida demais
de sentimento
ela é úmida demais
de tesão e castidade

no mundo em que estou, nesse, dos outros,
nada me apetece
nem vênus
nem marte

mesmo assim eu
sinto fome
de carne fresca
de suores noturnos

meu corpo não consegue conceber
a eternidade do espaço
e não se conforma com sua prisão
entre duas tão diferentes órbitas

vou me perder entre as estrelas

buscar constantemente
a felicidade me cansa

despido
deixo minha armadura e
me banho em seu rio de águas mornas

sem vontade e coragem de sair
o dia me despe
de suas luzes

sob as estrelas
ribeirinhas
as sombras me curam da compulsão
da busca por seu calor solar

nunca precisei buscar
o frio
agasalhado
corre em minhas veias
alheio às marés e suas luas

constante como uma chama
eterno quanto a galáxia