Textos de Luciano

rio de janeiro

minha carcaça é quente
como a de vocês

  a explicação pro suor dessa cidade
               pro calor da sua voz
               pra frieza do meu coração.

abre as asas sobre nós

me vulgarizo com uma facilidade irremediável.

faz pouco tempo que olho pra trás
  e me vejo livre
a liberdade plena e corruptora

a liberdade que permite que eu me dê pesadelos
que eu orquestre o presente com o único intuito de que ele se torne passado

que eu esqueça desse alguém
 - capitão? co-piloto? computador de bordo? -
  que vive por mim

esse cientista
  que vive por mim

a liberdade que não me abraça para não me prender.

amarro minhas mãos
  e me jogo
    ao precipício

da precisão e da necessidade

preciso
     de alguém pra poder apontar e chamar de amor.

          tenho tanto, tanto amor em mim

e a pressão do meu peito pede por um foco preciso
     de alguém pra poder apontar e chamar de amor.

fever dream

sonhei um sonho incrivelmente detalhado
em que a gente se amava, se sorria,
se casava

  o fruto do que eu não mais plantei

no fim, abraçados, contive as palavras
que gastava, para cuidar dos votos
de um ritual mundano que nunca sonhamos ter

  não saber o que eu diria
  é o motivo da tormenta

e sem saber o que pensar do sentimento
que só tive por ser sonho, por ser triste,
fico com medo de dormir

  eu nem pensava mais em você,
  mas fico feliz, pois nesse mundo etéreo
  existe meu voto que nunca existiu.

zen - parte dois

estamos ficando velhos e cada vez mais estúpidos.
  tratamos a inconsequência como objetivo final.
  traçamos metas para podermos deixar de prosseguir.

pensa:
  se o objetivo é que nada aconteça,
    o mundo
    conspira para que o faça.
      é o que lhe dá prazer, mostrar o quanto
      sempre, eternamente, cada vez mais

  estamos errados.
  errados por conta dos nossos erros.

  é um erro não conseguir parar de pensar em você.