Textos de Luciano

um encontro

se eu me deixar transparecer, me desculpa
é culpa
minha

juro que tento ser tão leve
como o sol nesse frio
  seu casaco
que é quase um kimono
  de pijama

eu acabo focando muito no que há de mal na vida
e perco o sorriso no desejo
de algo ruim acontecer

essa é a forma que tenho de me forçar
a reagir, me dá a mão
vamos anoitecer

estrela cadente

  uma estrela
só posso ver uma estrela no céu
  a cidade
não me permite mais que isso
é no meio da noite nada mais

que um borrão,
um sorriso,
um desejo

você pode sentir, mas não está lá

no papel
o permanente

marco a página do livro
  com o fio
    do fone de ouvido
e tento fazer algo seu
mas só consigo ser tão preciso
  como o fio
    da navalha

pânico

pouco se sabe
sobre dizer
pouco

ser hermético
é se esconder no
pouco
que se quer e pode oferecer

eu não corri embora

pelo portão barulhento
que nunca mais ouvi

o passado tem formas
inconsoláveis de bater a sua porta

não me canso de ouvir
seu ranger e bater

envolto em neblina
dos meus próprios pulmões

e a ferrugem em meus dedos
dizendo pra nunca mais voltar