Textos de Luciano

quase religioso

somos quase invisíveis

não precisamos de máscaras
    ou dogmas
    ou risos

de nós,
    só a luz perdida da noite
    os satélites

mas o amor é tão forte
mas o ódio é tão forte

        os nossos olhos
            em órbita
        não conseguem medir
        a força da palavra

fotografia dos próprios pés

parece que é algo íntimo
mas não é nenhum segredo

por onde meus pés andaram
com quem estiveram ou
o que vestiram
na noite
quietos assaltam a geladeira
tomam uma cerveja
e param de dançar, é o trabalho
do coração

atestado de recaída

de certo você já sabe o que me trouxe aqui, pra beber um pouco do seu uísque e secar minhas roupas molhadas de chuva. só não sei se você nota a gravidade do meu problema.
não é tão sério quanto uma depressão, mas há no meu riso um pouco de charlatão, e nos meus abraços um tom de ironia. assim, não posso ficar, muito menos aqui, contigo. você sabe tanto quanto eu o quanto você se sente mal com a minha presença e com a minha despedida.
mas aí você tira minhas roupas e me convida pra tomar um banho contigo, e, não cabendo em mim, me rendo. e contigo compartilho o calor do chuveiro, e o frio de cairmos nus na sua cama, sem nem mesmo acender a luz ou fechar as cortinas.
eu penso que olho nos seus olhos, mas não tenho certeza. ainda é escuro quando vou embora e não sei bem quando volto. você está feliz de novo, meu lugar não é mais aqui. volto quando ouvir a distorção da sua guitarra, sempre na mesma canção - e não tente se aproximar de mim até lá. esse é o seu erro. você pode ser poeta sem mim, é só tentar.

felicidades,
você.

dona amélia

era uma vez uma velha
e amável senhora

ela disse
    filho,
        você
            tem uma aura dourada
            vai ser alguém muito especial
        eu não me preocupo com você

        vá fazer sua arquitetura
        e lembre que você é
                sempre
            mais do que o que você faz

a mágica dela era
    tanto

        eu quero tornar
            ela
                realidade

saudade - parte 3

então, ao ver alguém de seu passado na rua
    admita
        nossa, que saudade!
porque as rugas denunciam
a vontade de voltar