Textos de Luciano

ao mar

quase não reconheci seu cheiro quando
fechei meus olhos e pensei nela
prometo que é a última vez
e quase sem te ver nesse breu
da noite com a lua oculta
nas nuvens desejei lhe ver mais uma vez
nessa noite quanto tempo faz
desde a minha última visita
e agora penso nela
de olhos fechados
prometo que não lhe vejo
e é a última vez

zen

todo o ser
  de negra alma
que sempre quis ser agora
  eu sou

  e que erro!

o que quis tenho diariamente
na ponta dos dedos
nada

  é suave como uma lanterna de pedra
  acesa sob a noite e a tempestade

bebo tristeza
com o café amargo
e tudo que não consigo mais engolir

leitura da mão

preciso de tão pouco
para viver tão bem
  um solo de violão
  roupas jogadas no colchão
  um longo café, um pouco de pão
  poemas clichês e um aperto no coração.

insólito

à deriva
à beira
ao cantar
da sereia
me sinto em xangai
ou em qualquer lugar oposto
onde não me entendam
e meu paladar seja inexato
de adeuses incontidos
de outra forma
de amar
   você

secretária eletrônica

a gente fazia essa brincadeira
  deixe
    por telefone
    depois da voz grossa de meu pai
  uma música
  um verso
  um outro

não sei
quanto gastei aquelas fitas
e lps
quantas vezes ouvi
  sua voz no interfone
quantos
    adeus

nada mais me faz lembrar
como era a vida
  ao tom
    da sua voz