Textos de Bernardo

Todos os Passos

Todos os passos ecoam em harmonia
  um grito contra essa solidão
  
  coletiva.
  
Todos comprimidos
dentro de um trem de ferro
comendo a terra sob outros passos
também ecoando em harmonia
  um grito contra essa solidão
  
  coletiva.
  
Todos os passos rumo ao mesmo objetivo
  chegar
  a
  tempo.

Dentro de um tempo do outro,
  criado pelo outro,
  imposto pelo outro.
  
Todos os passos soando como caixa registradora
  mais metro
  menos tempo
  mais garrafas de whisky
  pra molhar a festa da empresa
  
  coletiva.

Fuga na Cidade Cinza

Na terra do MUITO,
se contenta com

  seu pouco.
  
Pelos exageros monocromáticos
de homens que sonham com o céu,

  trafega com seu bucolismo,
  suas vírgulas,
  um despertar colorido
    - bocejo, pingado, pão na chapa, augusta -
  que toma rumo próprio
  encharcando de vida
  esse chão impermeável.
  
No meio do cimento
prensado e cinza,
  seu grito de liberdade
  em cada esquina.

Paleta

Minha caneta é pincel;
as palavras, as cores...

  Versos são os seus castanhos
largados nesses fios do seu cabelo
por entre os olhos que me cegam.

  Essa estrofe é sua pele bege
cadenciada pro moreno
espalhada pelo seu corpo:
  escura
onde eu posso ver;
  clara
onde eu queria poder ver.

  Poemas se resumem em sua boca
que articula e expõe seu portão
livrando o não e trancafiando a saudade.

  Poemas pintados de vermelho
se misturam em pontuação mal feita:
por vezes ponto final.
por vezes reticências...

O vermelho viabiliza o meu salto
  irresponsável
flutuando com a ajuda dessa cor quente
  assassinando a distância
entre a minha
  e a sua
         boca.

mais ou menos

    um dia quero escrever pequeno.
menos.
    fugir do desespero de ser eu.
        mais.

Microtons

Sobrevivo em som.
Crio eco no espaço
buscando brechas
comumente chamadas de ouvidos.

Reverbero nos agudos e graves:
a vida sobre a vida;
o dilema da vida,
  a vontade do acorde perfeito
  e a preguiça de uma nota solta.

Os ruídos são ondas dos outros,
  decompondo,
  sobrepondo,
tentando anular minha própra frequência,
  muito bem definida por padrão.

Minha casa é um lá menor,
  simples,
  agradável
  e que cabe na mão de qualquer criança.
Dentro dela existem somente seus microtons;
  no linguajar popular,
  poemas e fotos de minhas saudades.

Eles não sabem,
  mas também são músicas...
Elas não sabem,
  mas são elas que partem pelo ar...
Eles não sabem,
  eles simplesmente não sabem,
  que não são eles que decoram
  o que costumo chamar de lar...
Elas não sabem,
  mas eu mesmo navego por elas...

Um a um,
uma a uma,
até chegar ao pé do seu ouvido
                             em tom maior.

de novo