Textos de Bernardo

Desanuviar

Eu,
  nuvem que se desfaz,
em gotas prestes a cair,
em vapores a se confundir,
em granizos a se fundir.
No fim, tudo que não é ar
                       se vai.

A queda,
o salto
no abismo entre o céu e o chão.
O abismo entre nós.
Menor
Menor
Menor

A gravidade acelerando
toda a água que sou
em direção ao seu corpo
de mãos dadas a outro corpo.
Cabelo e vestido molhados
sorriso de boca aberta para os céus
pronta para me receber
  sem nem me perceber
  tocar a ponta do seu nariz
  e me espalhar em outras gotas
  por você.

Potinho de Escovas

Tudo que restou foi jogado fora.
  Nós parados e sorrindo,
  as notas e os nossos sons,
  as letras e declarações trocadas,
não estão mais aqui para serem
guia rápido e atalho para saudades.
Tudo, tudo foi jogado fora.
  Exceto sua escova de dentes.

Ao contrário do resto,
sua escova é um totem,
             um bastião do seu nome.
Ela não é só um instantâneo de um passado,
ela é o grito por sua presença...

Sua escova tem vontades próprias
e essas vontates não me permitem perdê-la.
Ela continua lá:
  no mesmo pote,
  com a mesma caixinha,
  a espreita,
  espiando o movimento do abrir e fechar
da porta do meu banheiro.

Sua escova guarda nossas memórias...
Sua escova tem o sonho da volta...
E no sonho dela, você a segura,
coloca a pasta,
esfrega com força e rapidez contra os dentes
logo após um café corrido
colocado entre o "bom dia"
e o atraso pro seu trabalho.

Partida

Ficam as fotos estáticas,
      os discos arranhados,
      os copos vazios,
      a cama arrumada,
      os livros sem dedicatórias,
      o anel sem o anelar.

Fica o eu,
Parte o você.
Enquanto isso, os nós se perdem
     em poemas
     num caderno partido.

Menos Zero Ponto Seis

O frio me conduz.

Força o sangue quente a circular
bombeando a vontade,
          o desejo,
          o tesão,
como quem luta para sobreviver,
  e não congelar,
durante os três segundos dos nossos olhares
  cruzados.

Tanque da Cozinha

os olhos são os primeiros a entregar
  semicerrados
  inchados
  vermelhos
  perdidos.
tentando buscar uma luz de lembrança,
querendo encontrar um detalhe
  para diminuir sua culpa.

os músculos cansados
guiam o corpo para o tanque
onde esperam trabalhar incansavelmente,
somente para apagar provas que desconhecem...

um pouco de sabão,
um tanto de água
e muito enxaguar...

aos poucos, surgem as primeiras bolhas.
carregam o cheiro, o tato, o beijo, a trama, a transa.
e assim, a noite ébria se faz presente
  como quem quer ser esquecida.
  
mais fortes que na camisa,
estão as marcas na memória:
você, solto, leve e em casa;
ela, solta, leve e longe de casa.
fusão de semelhanças e diferenças em gozo.

esfrega pano contra pano com mais força.
no desespero, sangram-lhe as mãos
  dar cor vermelha do batom
  que assina seu pescoço.
sangue que mancha o roxo do tecido,
  das pequenas hemorragias propositais
  tatuagens removíveis.

no cabelo desgrenhado ainda está o cheiro,
  cigarro do depois.
na respiração, o suspiro de uma noite
  muito mal dormida

no coração, um misto de culpa
  com utopia...
no coração, uma linda utopia...
no coração, um coração limpo.