tatuagem (ou viagem ao centro da terra)

imergir
por um buraco de pele
numa caverna tua
transpassar

guiar-me
por uma cachalote à profundidade
dos teus raros seres
abissais

escurecer
tatear a pressão do fundo
pra encontrar tuas fendas
oceânicas

borbulhar
um comprimido de ar
do teu último mililitro
de magma

me transformar em matéria
me transfigurar em meta
me tornar
enfim
nós

ábaco cinza

três beijos na bilheteria do metrô
    barrados pelo vidro gélido
    necessariamente blindado

dois "como vai?" no cabo do telefone
    enforcados pela voz serviçal
    de alguma não-Juliana

o aperto de mão com um voluntário da ong
    carregado numa tromba de ternos
    corrente da avenida desconhecida

aquela mensagem sempre sem resposta

zerar
  reaprender a contar
    refugiado
  nos cantos das maritacas

mestre jonas

minha baleia pirata
um reflexo caolho
pilhando o oceano
deglutindo tesouros
tudo só pra mim

lagostas
cardumes
ar salinizado
destroços mil

no convés por entre costelas
estas agulhas de crochê
costuram algumas últimas vaidades
quentinhas

no convés por trás do reflexo
me escondo das sombras
de tubarões
e de ônibus articulados

abaixo do horizonte, acima do mar

me sinto pesado à luz da manhã,
um lembrete da vida lá fora
um alarme reverso

abro a porta do microondas,
os apitos, o apertar dos olhos,
o cheiro do café solúvel

de costas pro sol, de frente pra varanda,
o que me impede da névoa
é a tela em rede, com seus nós

à beira do mirante, sou
    rarefeito
    alpinista
    delirante

pesca

noite aberta
o anzol espeta
a última chance
suspensa no ar

olhar que flerta
sorriso afeta
o último lance
dois a rodar

fuga esperta
lá feito seta
luz e nuance
cama, um mar

por tanta oferta
bateu sua meta
mais um romance
pra se imaginar

ela, roberta,
foi tão seleta
cedeu ao avance
de um tolo osmar

futuro alerta
ferida aperta
por fim descanse
o seu calcanhar