Saudade
Sopra este vento sul
e traz a garoa umedecendo
meu peito aberto
por conta da camisa
do primeiro botão perdido
que você tanto gostava.
Me deixo molhar
e ventar pro norte
Sopra este vento sul
e traz a garoa umedecendo
meu peito aberto
por conta da camisa
do primeiro botão perdido
que você tanto gostava.
Me deixo molhar
e ventar pro norte
Uma confissão
há um arco-íris
multicromático
a cada palmo desse cinza estático
por São Paulo.
Luzes e cores
não encontradas
daltonicamente
por essa doença criada nas areias
de Copacabana.
andar de madrugada pelas ruas da cidade é
tranquilo o vento que passa pela minha camisa de malha fina
arrepia
o ar limpo dessas horas me faz sentir parte de mim novamente
é de forma convicta que firmo cada passo chegando
perto de mim um canto de passarinho me alerta da
juventude que se passou
em marcha automática retorno à consciência
confusa
eu cheio de arrependimentos
e agora paro para dar valor
às consequências.
o raio-x não detecta
na bagagem de mão
toda essa melancolia
tão perigosa quanto qualquer explosivo
o detector de metais não capta
no fundo bolso direito
esse abandono afiado
e todas suas funções de canivete suíço
se encontrassem tudo
eu simplesmente os colocaria
de muito bom grado
dentro daquele lixo
junto com tantos outros objetos
pontiagudos ou
inflamáveis
Eu sou as curvas do antigo trem pelos morros,
os nelores ruminando em movimento perpétuo no pasto,
a árvore sozinha, só atormentada pelo vento seco e quente.
Eu sou a poeira do passar do caminhão de leite,
o alvoroço das maritacas no fio de alta tensão,
os formigueiros pisados por brincadeiras de criança.
Eu sou a estradinha que não leva a lugar nenhum e nem tem pressa de levar,
o pé de milho fazendo valer a vida na terra recém arada,
o coreto e a tv comunitária esperando dar a hora da novela.
Eu sou o prazer de enfiar a mão até o cotovelo num saco de grãos de feijão,
o par de havaianas soltas e tortas marcando o gol na praça,
Dona Adélia gritando, chamando os netos para o almoço pronto.
Eu sou a sobra de tempo que mora na mesinha de xadrez,
as lendas e apelidos ofensivos dos mendigos e pedintes,
o tilintar abafado das bolas de gude com a areia do parquinho.
Eu sou saudades,
inocência
e roça.